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Sobre Anthony Bourdain, viagens e depressão

Anthony Bourdain

A primeira vez que assisti Anthony Bourdain foi algo encantador: um programa sobre Quito, onde ele comia uma espécie de larva no espeto, seguido de um programa sobre São Paulo.

Foi afeição à primeira vista! Aquele “senhor” de cabelos brancos, sem papas na língua e com uma alma livre entrou para o meu hall de pessoas de quem eu gostaria de ser amiga, ao lado do David Grohl e Barack Obama.

Mas, como toda pessoa de alma livre, carregamos um peso do mundo dentro de nós. Tristemente recebi a notícia de sua morte por suicídio, por depressão.

Mas como um cara que trabalha viajando, e provando delícias (ou não!) pelo mundo, comete um suicídio?!

Bem, tentarei nas próximas linhas expor alguns pensamentos que devemos ter antes de fazer qualquer julgamento, e me usarei como exemplo.

Sou privilegiada: tenho uma família maravilhosa, um relacionamento com uma pessoa que me apoia (e puxa minha orelha sempre que necessário), amigos que são como parte da família, um emprego dos sonhos, um projeto pessoal que tem reconhecimento do público, viajei por muitos lugares, conheci culturas diferentes, pessoas encantadoras com suas histórias incríveis, provei muita coisa gostosa e uma bem amarga – minha depressão!

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Foto: George Barris / Marlyn foi vencida pela doença e suicidou-se no auge da carreira.

Sim, eu tenho uma tormenta dentro de mim chamada depressão. E você pode pensar: “Nossa, mas a vida dela é maravilhosa, isso pra mim é frescura.” Me poupe, se poupe, nos poupe!

A depressão é uma doença, uma anomalia na química do cérebro. Ela não escolhe pessoas por classe social, cor, sexo ou rostinho bonito, ela simplesmente aparece e toma conta do seu ser, de uma forma tão avassaladora que você inicia uma guerra: ou você vence, ou ela aniquila você.

Demorei muito tempo para falar sobre depressão com a naturalidade que falo hoje. Porque é um tema que envolve muito preconceito – do mundo e, muitas vezes, da própria pessoa depressiva consigo mesma. Envolve, também, aceitação, entendimento, quebra de tabus e, principalmente, força para encarar os julgamentos.

As aparências enganam…?

Quando resolvi que iria a um psiquiatra (sim, meus amigos, um psiquiatra ao qual devo minha vida), eu simplesmente não entendia ou não tinha forças para suportar toda aquela desordem dentro de mim. A primeira pergunta feita por ele foi: você é feliz?

Minha maior dor daquele dia foi não saber responder algo tão simples, me debulhar em lágrimas na frente de um completo estranho, para – a partir disso – me desarmar e conseguir tirar a máscara da “vida perfeita”.

Pois é… Um número imenso de pessoas vende, diariamente, uma imagem que muitas vezes não é a real. Escondemos nossas angústias e aflições em feeds do Instagram, fotos motivacionais do Facebook ou sorrisos cotidianos que frequentemente camuflam os problemas da alma. Uma hora, a alma cobra! E o preço pode ser muito caro.

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Foto: Divulgação / Ao perder seu melhor amigo, em meio tormenta de sua luta contra a depressão, Chester Bennington não suportou o luto e suicidou-se.

É cada vez maior a quantidade de gente que vive em “bolhas”. Espécie de refúgios protetores e, ao mesmo tempo, uma maneira de nos importamos cada vez menos com as pessoas que estão à nossa volta…

Lendo e relendo sobre a morte trágica do Anthony Bourdain, mais de uma vez, me veio à mente: poderia ser eu!

Sim, poderia! E isso tornou a morte dele ainda mais dolorida para mim. Eu realmente me vi nele, de certa forma. E senti, naquele instante, aflorar em mim um sentimento cada vez mais ameaçado de extinção: a empatia pelo outro. Chorei pela dor dele, tão grande que o levou ao ato extremo.

Sinal de alerta para a sociedade

Até quando vamos permitir que as pessoas cheguem ao suicídio? Até quando nossos preconceitos, julgamentos e tabus contra doenças e transtornos psicológicos vencerão a vida!? Até quando chamaremos essas patologias terríveis de mimimi, falta de louça para lavar, falta de coisa melhor para fazer…

Hoje, me exponho para todos de forma aberta, com o intuito de que esse muro de desinformação e indiferença comece a ser quebrado. Penso que é necessário falar sobre o assunto com insistência e profundidade, para que cada vez mais os preconceitos sejam varridos, para que possamos nos humanizar (ou reumanizar). Voltar a sentir verdadeira empatia e amor por essas pessoas que enfrentam adversidades psicológicas e emocionais.

Pessoas como eu, mas que em determinado momento podem ser parentes ou amigos de cada um de nós – seres humanos que “de repente” sofrem de algo que não escolheram para suas vidas, algo que simplesmente “ganharam da vida”, como um imenso e sofrido desafio.

Robin Williams
Foto: Divulgação / Robin Williams é a prova que a depressão não tem um aspecto apenas de tristeza.

Anthony Bourdain, Kate Spade, Robin Williams, Chris Cornell e tantas outras almas, famosas ou anônimas, perderam a batalha contra a depressão. Porém, acredito que com mudanças de paradigma, com um outro olhar, mais repleto de compaixão e fraternidade, podemos vencer a guerra!

Buscando ajuda e informação

Você não se sente bem? Converse com alguém em quem você confie. Não tenha medo, por mais difícil que seja falar – já passei por isso e posso garantir que no final será uma vitória!

Mas você não se sente seguro para conversar com algum amigo ou parente? A boa notícia é que existem muitas luzes no final do túnel! E uma das mais fortes, com toda certeza, é o Centro de Valorização da Vida. Fundado há mais de 50 anos, o CVV desenvolve um trabalho lindo, em que busca ouvir e orientar quem precisa de ajuda – às vezes, socorro imediato.

No blog, também temos uma postagem sobre o Setembro Amarelo e o apoio dedicado às pessoas com depressão. Recomendo a leitura para criarmos um melhor entendimento sobre a doença.

Um vídeo bem bacana sobre depressão é o da Jout Jout, que recebeu a Stella para desmistificar esse mal, um “inimigo público” que tem levado do planeta tanta gente maravilhosa. Você pode assistir clicando aqui.

O mais importante que a doença me ensinou foi que o furacão habita em mim, mas eu não estou sozinha nele!

(Anthony Bourdain, descanse em paz.)

Au Revoir, Ci vediamo, Hasta Luego, See you later, Até logo!

Michellândia

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