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Medo de mim mesma

Visceralistas - Michellândia

 

Mãos geladas e trêmulas, suor irracional, me detesto nesse lugar. Perco a firmeza dos movimentos, abro e fecho a bolsa, seguro e solto meus pertences num desatino, tento parecer que esqueci algo. Não suporto que me vejam louca varrida, logo eu, tão sensata. A tremedeira involuntária da boca dificulta a comunicação, falo torto meias palavras. Tudo ao mesmo tempo se desorganiza e não sei mais a direção. Vou e volto, sem saber para onde estou indo. A voz sensual no alto-falante anuncia algo, sigo o fluxo, como o gado segue a manada.


Ideias paranoides me invadem, aquele sujeito é suspeito, aquela fulana é estranha. Observo cada passo, trejeito e olhar, como um radar desvairado. Meu raio de visão só enxerga sinais de perigo. Engulo seco o pouco de saliva que me resta. Melhor não falar, que não me perguntem nada, ou então alguém me distraia, por favor.

A criança ao lado se diverte, como queria ser ela, alheia e inconsciente de todos os riscos. Bate com o brinquedo no chão, ele quebra, ela chora. Por alguns segundos aquela cena me poupa do martírio mas logo o choro se transforma em mais um sinal da tragédia que está para acontecer nas próximas horas.  Sozinha naquela multidão, sem poder confessar o medo, me rendo. Poltrona 21 E, portão 5, embarque imediato. Imediato, morte imediata, inevitável, irreversível. Maldita hora que resolvi representar a família no casamento de uma prima distante.

Não lembro quando foi que o medo de voar superou o prazer de viajar. Este é um dos muitos paradoxos da minha existência. A paixão por conhecer lugares novos, a espera sempre ansiosa pelas próximas férias, como entender que tudo isso se transforma num sofrimento desnorteante na hora em que me imagino dentro de um avião?

Na poltrona ao lado dois engenheiros, deduzo pela conversa entre eles. A partir dali meu foco são aqueles dois rapazes. Perceberão o início da pane antes de todos. Procedimentos básicos realizados, permanecemos no mesmo lugar por um tempo maior que o usual. O avião não decola e as pessoas começam a se inquietar. Eu estava certa. Havia algo de errado e, nesse caso, odeio estar certa.

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Crédito: Ariana Alves Magalhães

Não lembro exatamente do problema mas fomos orientados a desembarcar, provavelmente para esperar por outra aeronave. Um alívio súbito tomou conta de mim, havia uma chance de escapar. Fugiria como uma oficial covarde de uma missão qualquer. Uma hora depois, ainda sem notícias do novo embarque, permanecia ali sentada, pensando na minha fuga mirabolante do aeroporto.

No mesmo avião? Mas quem me garante que ele foi consertado? Peço explicações rapidamente, antes que os sintomas da crise de pânico tomassem conta de mim. Os engenheiros percebem meu nervoso, tentam me tranquilizar com estatísticas de acidentes, bicicleta mata mais que avião, blá  blá… Não há fato nem lógica que consiga demolir a verdade que o medo sustenta. Ainda assim, por amor à família e diligência, entrei novamente no avião.

O destino era Caracas, Venezuela, céu de brigadeiro. Meia hora depois somos avisados pelo piloto que seria preciso pousar em Manaus pois a aeronave tinha apresentado um novo problema. Sim, aquele avião que eu não queria ter entrado desde o início. Olho para o lado e vejo um mar de rostos desconfiados. Pousamos, felizmente, sem nenhum contratempo, sob aplausos e risos nervosos de alguns passageiros.

A informação seguinte ao pouso é que teríamos que esperar mais uma hora para então retomar a viagem no MESMO AVIÃO. Àquela altura, sem medo de expor meu medo, desembarquei anunciando em voz alta que nada me faria continuar a viagem. Para tentar me convencer, chamaram o piloto. Nem o constrangimento daquela cena me fez mudar de ideia. Nada mais a fazer, restou à companhia aérea providenciar uma passagem de volta para São Paulo para o dia seguinte, de primeira classe, além de uma hospedagem no Hotel Tropical da Amazônia. Perdi o casamento e a vergonha.

Isso aconteceu há mais de quinze anos, e de lá para cá viajei inúmeras vezes e em todas elas sofri, suei, tremi, mas fui. E voltei. O medo enfraqueceu, caducou, já não é mais tão tirano. Desisti de achar a lógica, como, porque… aceitei o medo, como se aceita o anoitecer depois de um dia ensolarado. Talvez a lógica seja o próprio paradoxo: aquilo que mais desejamos é também o que mais tememos. Viajar é reencontrar a si mesmo numa outra morada, solitária, desconhecida, é habitar a si mesmo naquilo que menos conhecemos, nossa própria estrangeiridade.

Rodapé

Au Revoir, Ciao, Hasta Luego, See you later, Até logo!

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