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Aposta burra em Las Vegas

visceralistas- Michellândia

Tudo aconteceu em um tour pela Costa Oeste dos EUA em 2012. Depois de sobreviver a um vôo turbulento em Miami, uma pausa em Orlando e uma semana decepcionante em São Francisco, não pareceu justo ir para Los Angeles sem antes dar um pulinho na Cidade do Pecado para tentar a sorte. Minto! Na verdade estava tudo planejado e fomos parar lá depois de eu ter infernizado meu adorável cônjuge/companheiro de viagem sobre como seria bacana conhecer uma cidade fundada no meio do deserto por mafiosos em busca de lucro.

Sim, a culpa foi minha e do meu fascínio por coisas duvidosas. Queria ver o Flamingo (que rendeu a morte de seu idealizador, Bugsy Siegel) e aprender mais sobre essa cidade brilhante nascida das ambições de criminosos e peregrinos em busca de riquezas. Queria conhecer o deserto que a cerca. Queria ver a famosa placa de “Welcome to Fabulous Las Vegas” e todas as luzes neon de cassinos antigos. E se desse tempo, queria realizar meu sonho da juventude e casar em cinco minutos numa cerimônia oficiada pelo Elvis. A expectativa era conhecer o lado oculto da cidade durante o dia e talvez fazer um tour nos cassinos durante a noite. A realidade, por sua vez, tinha seus próprios planos.

Chegando lá, ficamos num hotel fora da Strip (a famosa avenida que aparece nos filmes) na primeira noite. Era bem confortável, mas no dia seguinte nos mudamos para algo mais em conta: um hotel-cassino em formato de castelo medieval, próximo das principais atrações locais. Ao contrário de outros lugares do mundo, em Las Vegas é mais barato ficar na região turística do que fora dela, tudo graças ao dinheiro gasto com jogatina. Hoje acho que valeria pagar um pouco mais pra ficar longe do agito, mas não tinha como saber disso na época. Munidos dessa ignorância, pegamos as malas e partimos para a Strip na manhã seguinte.

Ao entrar no hotel fomos recepcionados por penumbra e um forte cheiro de cigarro encoberto por algum aroma sintético. Com a intenção de fazer as pessoas perderem a noção do tempo, os cassinos não possuem janelas ou luz natural, de modo que nem todo o perfume e limpeza do mundo são capazes de remover por completo o odor de fim de festa. Pouco impressionados, fizemos nosso check in e cruzamos o cassino em direção aos elevadores, navegando entre mesas de jogo e máquinas caça-níquel. Aquilo parecia uma grande mistura de bingo com balada decadente e, a cada passo, questionávamos nossa mudança de acomodação até que, na metade do caminho, fomos parados por um funcionário que nos ofereceu entradas para algumas atrações locais.

“Mas é gratuita?”

“Sim, claro! É uma promoção para casais. Vocês podem escolher entre um jantar medieval ou o show do Thunder From Down Under e só o que vocês precisam fazer é visitar um novo empreendimento local” (alerta 1).

“Mas não precisa comprar nada?”

“Não, é só ir lá e pegar um voucher na saída”.

Descrentes mas esperançosos, topamos a barganha em nome do jantar grátis. Um ônibus nos buscaria no dia seguinte, lá pelas onze da manhã. Com sorte, voltaríamos a tempo de passear na parte antiga da cidade. Tudo tranquilo. Tudo favorável.

No horário marcado, pegamos o tal ônibus rumo a um prédio nos arredores da cidade (alerta 2). Chegando lá, um sujeito com um terno azul sintético e vários acessórios dourados (alerta 3) nos mostrou os apartamentos e amenidades do lugar. Tudo muito bonito, tudo muito bom, podemos pegar nosso voucher? E foi aí que a cilada se revelou em todo seu esplendor.

“No hotel que vocês estão ficando, vocês tem todo esse conforto? Não, né? Agora imagina poder desfrutar de toda essa estrutura em qualquer viagem de férias. Pois então, assinando o nosso timeshare, vocês terão apartamentos assim, disponíveis em qualquer lugar do mundo!”

Tentamos de tudo para fugir dali. Explicamos que éramos brasileiros, dissemos que éramos falidos, prometemos levar a proposta a um primo de vigésimo grau que poderia se interessar, culpamos a religião, a política, os aliens e os unicórnios, mas nada funcionava. O sujeito continuava insistindo que era uma oportunidade única e que nós, sendo pessoas inteligentes, não deixaríamos escapar essa pechincha de pagar mensalmente por um serviço que usaríamos uma vez ao ano (supondo que sobraria dinheiro para viajar nas férias).

Quando o papo de vendedor se esgotou, ele apelou pro lado pessoal. “Porque eu fui boxeador, então eu sempre lutei para ter coisas boas. Vocês não gostam de coisas boas? Olha quanta gente aproveitando essa chance única. Quando viajo com minha família, não preciso mais me preocupar, nem quando eles resolvem chamar mais gente. Uma vez tivemos visitas inesperadas e foi super fácil achar espaço para todos. Imagina se fosse em hotel…”

“Legal cara, mas a gente não quer mesmo. Cadê nosso voucher?”

“Preciso chamar minha gerente, só um segundo.”

E aí foi a vez da gerente repetir o discurso.

Quatro horas depois, famintos e fartos, conseguimos persuadir nossos dois captores de que éramos pobres loucos sem maturidade e intelecto para comprar timeshare. Depois de uma fila de espera, pegamos nosso voucher e entramos no ônibus com outros casais irritados pela perda de tempo. Chegamos no hotel quase quatro horas da tarde e sem almoço. Lá se foi o tempo que tínhamos para visitar o centro. Só restava comer um lanche, descansar e esperar o tal jantar medieval lá pelas oito da noite. Que no fim das contas nem foi tão bom assim.

Moral da história: não existe jantar grátis em Vegas!

PS: Nos outros dias conseguimos aproveitar melhor a cidade, visitar o deserto, o Flamingo, o Mob Museum e a fonte do Bellagio e a Freemont Street. Mas o dia perdido nos custou meu casamento drive-thru dos sonhos. Fica pra próxima!

Ju

Au Revoir, Ciao, Hasta Luego, See you later, Até logo!

michellc3a2ndia

 

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