Jak lokalny*

Domingo, 7 de junho de 2015. Era o meu último dia em Varsóvia, mas não sabia disso.  Quando a claridade exuberante daquela manhã me acordou, eu sequer havia pensado seriamente sobre deixar a cidade. Tinha consciência de que o momento se aproximava – estava há 25 dias na Polônia e há dez no apartamento do meu amigo Łukasz (na verdade o apartamento era dos pais dele); em algum momento teria que tomar vergonha na cara. No entanto faltava experimentar algo que eu não sabia definir, apenas sentia a sua necessidade como se houvesse um compromisso o qual não estava honrando.

Tratei de pensar em outra coisa. Não queria cair na onda dos viajantes hypados, que são “obrigados” a buscar aventuras e coisas incríveis para curtir a cada minuto porque a vida é agora e blá blá blá. Viajar é mais do que isso. Viajar também é dormir até mais tarde e eu desejava ficar na cama até o meio-dia; precisava disso depois de quase um mês levantando antes das 7h e indo deitar depois da 1h. Mas o sono tinha ido embora. Eram 9h da manhã e a Avenida Sobieskiego anunciava que a cidade havia acordado – e meu organismo se habituara a acordar junto com ela.

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Vista do bairro Mokotow, Varsóvia – Arquivo pessoal

Assim que notei o Łukasz vagar pela casa, quis lhe fazer companhia. Encontrei-o na sacada, sentado de frente para a rua, com o olhar perdido dentro do Parque Mokotów, um dos mais bonitos da cidade e que oferece a copa das suas árvores para serem admiradas. Não me notou, apesar de eu parar ao seu lado. Lembrei-me imediatamente do Mano e de sua distração com o olhar virado para dentro. Invejei-o secretamente, assim como invejo o Mano – o máximo de liberdade que se pode experimentar é permitir perder-se nas próprias ideias e sentimentos. Dei bom dia. O Łukasz respondeu estendendo um latão de Tyskie, a Brahma da Polônia: Champions’ breakfast. Sentei ao seu lado para tomar o meu desjejum e começamos a falar bobagens aleatórias, lembrando da época da Copa do Mundo, quando nos conhecemos em sua passagem pelo Brasil. Até que seu pai pediu-lhe que fosse ao supermercado comprar mais carne e mais kiełbasa,  linguiça em polaco, pois queria mostrar para o brasileiro nascido perto da Argentina que um polonês também sabe fazer churrasco. Brinquei com o Seu Zygmunt que no sul não consideramos churrasco a carne assada na grelha, mas ele não entendeu (nota mental: não fazer ironia em outro idioma, principalmente se nem você nem o seu interlocutor são fluentes nessa língua). Fiquei com medo que ele tivesse se ofendido e fiz questão de ir ao supermercado no lugar do meu amigo.

Enquanto caminhava pela vizinhança, ouvi os latidos de uns cachorros que discutiam sobre quem era o dono do território. Ouvi risadas em algum lugar. Ouvi uma discussão de família e fiquei na dúvida se estavam brigando ou se divertindo. Vi carros estacionados sem a pretensão de rodar, vi um pai acompanhar o filho pequeno se aventurando de bicicleta sem o objetivo de torná-lo um ciclista profissional, vi um gato branco atravessando a rua sem precisar correr, vi o céu azul de um verão brasileiro.

Senti-me relaxado ao penetrar naquela manhã de domingo preguiçosa e, ao mesmo tempo, cheia de energia. Também senti falta de ter o Mano caminhando ao meu lado, discorrendo acerca de como a religião age sobre as pessoas para mantê-las sob controle ou sobre como funciona o cérebro de um serial killer ou então criticando os hábitos cretinos e insensíveis dos nossos parentes, que fazem perguntas indiscretas com a intenção velada de humilhar. Olhei o celular para ver se a Mãe não havia me ligado pedindo para comprar algo no mercadinho que só agora ela viu que não tem em casa, mas não havia nenhuma chamada e isso me tranquilizou um pouco.

Na volta, já da esquina pude sentir o cheiro de carvão misturado com linguiça assando. O Pai não me esperou para espetar a carne, pensei. Ao entrar no apartamento, enxerguei a Mãe vindo em minha direção com um prato repleto de pedaços de carne para petiscar e finalmente estranhei o que estava acontecendo. Balancei a cabeça e vi a mãe do Łukasz sorridente, solícita e afetuosa. Sorri de volta para retribuir o carinho; e continuei sorrindo, pois é irônico se dar conta de que a projeção atua de forma silenciosa, incontrolável e instintiva.

Botei a mesa, abri a geladeira para pegar mais cerveja, enchi de Tyskie até a borda o copo de cada membro da família. Tagarelamos e gesticulamos o almoço inteiro como se falássemos a mesma língua.

Eu me sentia em casa e ao mesmo tempo sentia falta de casa. Era hora de partir.

*Como um local, em polonês

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Au Revoir, Ciao, Hasta Luego, See you later, Até logo!

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