Visceralistas – O mar, Irê, o mar nem sempre é azul

Vi nos olhos dos outros a fé, que você conhece bem. Paguei nossa promessa, fiz um pedido. Não te preocupa.

Me joguei com tudo do sertão de Juazeiro pradiante. Sola do sapato gasto, saco de pano, saia de lona, peito aberto, ruga na testa, olho vivo. Eu sou mulher e muita coisa. A poeira da estrada muda a cor dos meus cabelos, meus trapos, minhas unhas e de tudo o que eu vejo. Mas eu, Irê, eu tenho faro.

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Crédito: Arquivo pessoal

Na carroceria coube, além de mim, uma dúzia de pessoas. Balançando as pernas, vento cortando meu rosto: ffss, ffss, ffss. Era como se eu estivesse sozinha. E nada mais me importava. O céu é azul escuro, não é preto, não. E quanto mais eu olhava para as estrelas, mais elas chegavam perto. De madrugada o mato tem cheiro de vida.

Presta atenção, Irê: mais de três luas se passaram, o calor do dia não chegava nem aos pés da noite fria que fazia. Aqui não é como aí. Mas não é mesmo.

Nesse chacoalho segui rumo a Pernambuco, atravessei o Alagoas e dei de cara com Sergipe. O rio São Francisco é feito de redemoinhos. Olhando para cima vi logo a trilha do cangaço. Chão de terra contornada por planta viva, galho seco, pedra grande e miúda. Subi desapartada, guiada pelo canto do tuju. A casa de telha e barro tem muita história para contar: de horror, de morte. E muito mais que isso:

Tenho cometido violências e depredações vingando-me dos que me perseguem e em represália a inimigos. Costumo, porém, respeitar as famílias, por mais humildes que sejam, e quando sucede algum do meu grupo desrespeitar uma mulher, castigo severamente. Até agora não desejei abandonar a vida das armas, com a qual já me acostumei e sinto-me bem. Poderia retirar-me para um lugar longínquo, mas julgo que seria uma covardia, e não quero passar por um covarde. Gosto geralmente de todas as classes. Aprecio de preferência as classes conservadoras – agricultores, fazendeiros, comerciantes, etc., por serem homens de trabalho. Tenho veneração e respeito pelos padres, porque sou católico. Sou amigo dos telegrafistas, porque alguns já me têm salvo de grandes perigos. Acato os juízes, porque são homens da lei e não atiram em ninguém”

(Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião).

O mal é a ausência do bem. E ninguém pode dar o que não recebeu. Tu acha que essas coisas fizeram dele uma pessoa árida, Irê?

No caminho vi um bode oprimido e faminto. Mais na frente um tanto de vaca só pele e osso. Uma penca de menino da canela fina e bucho grande. Povo levando e buscando água. Carcaça de jumento pregada no asfalto. Parei para sossegar, dormi feito uma pedra. De manhã bem cedo peguei minhas coisas e fuimembora. O povo ficou lá, esperando pela misericórdia de Deus.

Larguei de mão essa estrada e me rumei para o outro lado. Eu vi pessoas dando as mãos ao redor de uma árvore. Uma criança batia tambor para uma velha, que não tirava o olho de mim. Encarei bem ela, assim sem piscar. Dei-lhe uma umbigada e dancei no meio da roda. Ela gostou foi muito, e eu também.

Lá pelas tantas escutei o ranger da roda de um carro de boi. Até pensei que era tu. A velha disse que eu só podia estar doida, mas acontece que eu não esqueci o meu passado. Antigamente tu cantava para mim até eu pegar no sono. E de manhã eu acordava com saudade desse acalanto rouco. Tua voz ecoa nos quatro cantos do meu corpo, esse silêncio me mata.

Por que é que tu não fala? Por que é que tu não grita de uma vez por todas? Não chora, não, vou tomar conta de ti. E de mim.

Ficamos sujeitos a toda sorte de coisas quando andamos sem rumo. Me arranjo num lugar hoje, noutro amanhã, e assim a vida inteira. Mas tudo isso para quê, Irê? Tudo isso não serve para nada. O que é destino pra ti?

Eu estou onde meu coração está.

Rodapé

Au Revoir, Ciao, Hasta Luego, See you later, Até logo!

Michellândia

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