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Visceralistas – Estrangeira

Quando os filhos são pequenos, viajar sozinha é uma tarefa complexa. Mas estar sem eles por algum tempo é também uma forma de cuidar de si, de aliviar o peso do cotidiano que, mesmo sendo encantador, uma hora cansa. Percebi a complexidade disso quando me vi buscando um motivo que justificasse a viagem. Afinal, uma mãe viajar sozinha parecia suspeito. Eu pensava assim na época e precisei de um álibi.

paris cafe le buci
Crédito: Arquivo pessoal

Sem conseguir confessar meu real desejo de estar só em algum lugar onde ninguém me conhecesse, decidi estudar francês em Paris por um mês. O tempo que levei preparando a casa e os filhos para o período de minha ausência quase empatou com o total de dias da viagem. Por isso, se você planeja em algum momento uma escapada dessas, aviso: menos de um mês, não vale a pena.

A hora da partida é sempre difícil, por mais que se deseje ir. No caminho até o aeroporto percebi uma estranha mudança acontecendo dentro de mim. Quando atravessei o portão de embarque já não conseguia mais juntar o que sentia com o que pensava. Por alguns segundos me vi num limbo, olhando para o passaporte como se fosse um caderno de receitas. Não me reconheci. Virei para o lado, nenhuma voz de criança, ninguém me chamando de mamãe. Esqueci o que estava fazendo ali. Que estranheza, como deveria referir-me a mim mesma a partir daquele momento? Recobrei a consciência com o celular vibrando; era meu filho mais velho querendo saber onde eu tinha guardado sua chuteira nova.

Chegando a Paris procurei me adaptar ao modo de funcionamento sozinha. Tive algumas recaídas no começo. No mercado, por exemplo, foi difícil me convencer a não comprar a quantidade mínima de cada coisa: uma banana, uma maçã.  Aos poucos fui reconhecendo a estrangeira que me habitava, aquela que deixei de ser, que expatriei dentro de mim mesma por longos anos. Me dei conta do grau de distanciamento interno que a experiência da maternidade tinha provocado em mim. Precisava achar uma nova medida. A viagem era, no meu caso, uma questão de saúde mental.

Passei os primeiros dias andando pela cidade e elegendo pontos contemplativos para ir depois das aulas. Cafés, museus, restaurantes, jardins, pontes. Criei assim um roteiro de lugares que passei a frequentar várias vezes para poder sentir um clima de rotina fora da rotina. O Café Le Buci se tornou meu observatório diário. Algumas mesas pareciam cativas de alguns frequentadores. Lá estava ele, o mesmo senhor trajado de forma elegante, com um lenço de seda no pescoço e um jornal que lia de ponta a ponta. A xícara de café parecia apenas um pretexto para permanecer ali e estender ao máximo aquele momento. Esquecer o relógio e deixar as horas passarem sem que precisassem ser controladas, esse foi meu segundo grande desafio depois da experiência do mercado para conseguir viver aqueles dias no modo de funcionamento sozinha sem pressa.

O que aconteceu a seguir, depois de apenas uma semana em Paris, foi inexplicável. Posso sentir até hoje os efeitos da interrupção abrupta daquele momento, mas tenho a esperança de que ao escrever sobre essa experiência, eu consiga dar a ela algum sentido dentro de mim.

Era hora do almoço em Paris, sete da manhã no Brasil. Estava prestes a sair de casa quando ouvi o som da chamada do Skype no computador. Quem seria àquela hora? Filhos acordados tão cedo num domingo? Pouco provável, a não ser que fosse alguma notícia ruim. Abri a tela, era o pai deles. Mas logo descartei a possibilidade de um problema; ele estava com um semblante leve, sentado em algum lugar que não identifiquei de imediato. Parecia um bar ou um … Café.

Isso mesmo, um Café. Ele sorriu e então levantou-se girando a tela do computador para a rua, e nesse momento percebi que  estavam em Paris, na Rue de Buci, no Café Le Buci, ao lado da Rue Mazarine, onde eu tinha alugado um apartamento. Meus filhos transbordavam de alegria, tinham preparado com o papai uma surpresa para a mamãe.

Portanto, minha segunda dica para você que planeja uma viagem como essa: não diga onde vai ficar, não divulgue seu endereço. Para garantir, não diga nem para que país irá. Não podemos nunca duvidar da astúcia de nossa família, especialmente se você for a mãe.

Rodapé Dani

Au Revoir, Ciao, Hasta Luego, See you later, Até logo!

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