Visceralistas – Próxima parada

As viagens interiores sempre me encantaram. Sou daquelas pessoas que aproveita qualquer brecha para entrar no ninho e, com um prazer enorme, explorar cada pensamento, transformando tudo em conclusões das mais absurdas. De tanto viajar por dentro, desenvolvi na adolescência uma insegurança específica de viajar no mundo real. Trajetos eram um terror, cobertos de cheiros estranhos, pesadelos, insônia, enjoo, dor de barriga e todas as reações que o medo provoca em gente desarmada. A potência de minha imaginação para criar cenários catastróficos deixaria a fissão nuclear parecida com um traque de massa*.

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Crédito: Arquivo Pessoal

Um dia coloquei na cabeça que o motorista do ônibus intermunicipal me esqueceria numa das paradas entre o embarque na cidade e meu destino. Síndrome de abandono crônica intensificada na véspera de exames escolares. Escolhia viajar durante a noite, para aproveitar cada minuto com a família antes de voltar para as apostilas. Minha mãe e irmã moravam no interior do estado enquanto eu estudava para o vestibular em Salvador.

Sofria quando tinha que pegar aquele ônibus, não pelas oito horas de desconforto, mas porque aguardava ansiosa a parada para fazer xixi. Essa era a deixa para o motorista seguir viagem sem mim. Detalhe importante: odeio banheiro de ônibus; espero que todos entendam que, para mim, é a coisa mais desagradável que existe. Claustrofobia com cheiro é de matar. Sempre prendia o xixi até chegar o momento da parada da viagem na rodoviária de Jequié.

Num feriado, fomos meu medo e eu visitar a família. O ônibus parou num dos pontos rodoviários e fui uma das primeiras a descer, não antes de ter certeza de que o motorista gritou “Dez minutos”. Demorei um pouco mais na fila do banheiro por causa das mulheres que resolvem viajar com roupa demais, fivelas demais, zíperes demais, botões demais, nada práticos para se desfazer num banheiro público. Pulando, apertada, preocupada com o ônibus, usei o banheiro como ele deve ser usado, rapidamente, e saí correndo com minha bolsa sempre grande me seguindo.

Quando voltei ao ponto de parada, cadê o ônibus?

Desesperei.

Deixei um palavrão pouco comum de sair de minha boca e fui, soltando fumaça pelas ventas, me queixar no guichê. Um absurdo, falei, como deixam o ônibus sair sem um passageiro?! Algumas pessoas começaram a se interessar por minha história, me perguntavam o que aconteceu e eu repetia cada vez mais alto e com a cara mais vermelha que tinham me es-que-ci-do.

A história foi crescendo, os curiosos se aproximando e o responsável pela empresa de ônibus falando com jeito manso “É, fiz uma vistoria e tava faltando um passageiro mesmo.”

Então, respirava contida, tentando me manter calma, por que deixou o ônibus ir? E agora? Minhas malas, minhas coisas! E meu travesseirinho?!

Pensava com dó de meu pobre travesseirinho abandonado na cadeira com sei lá que vizinho psicopata ao lado. E as malas largadas no bagageiro do ônibus. Tudo ganhava vida e sentimento em minha cabeça.

Andava de um lado para o outro, enquanto um atendente conversava com o dono da lanchonete, articulando me encaixar no ônibus que passaria dali a duas horas. De repente um iluminado resolve fazer a pergunta decisiva: “Qual o horário de seu ônibus?”

Não estava para fazer amizade, mas me contive em perguntar pra que quer saber. “22h45”, respondi emburrada.

Demorei para decodificar o que ele falava. Ouvia sua voz, enquanto ele apontava para um lugar e, em câmera lenta, minha atenção se deslocava do meu pensamento caótico para a realidade materializada da rodoviária de Jequié e a parada da Camurujipe: “Ué, olha seu ônibus estacionado ali.”

Silêncio geral.

Entrei no ônibus, bolsa apertada no peito, sem olhar para os lados, ouvindo uns risinhos infames vindos das poltronas do fundo. E o motorista vira para mim: “A senhora demorou, hein? A buzina já estava rouca de tanto que apertei”. Pelo menos travesseirinho não enrubesce. Abracei o pobre quase órfão, pensando que ou adestro essa minha mania de criar cenários ou viro escritora de uma vez por todas.

* traque de massa na Bahia pode ser traque, estalinho ou bombinha em outras regiões.

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Au Revoir, Ciao, Hasta Luego, See you later, Até logo!

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