Visceralistas – Turbulência em Miami

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Foto: Arquivo pessoal

Feriado do Labor Day, 2012: Um jovem casal de brasileiros residindo temporariamente na Carolina do Norte, decide viajar para a costa oeste dos EUA, fazendo uma pequena parada na Flórida para ver o motivo de Miami e Orlando atraírem tantos compatriotas. O plano era passar apenas um dia em cada lugar e depois fugir para a Califórnia. Mal sabiam que ali viveriam as 24 horas mais longas da viagem.

Era final de agosto e nossa dupla de viajantes antecipava um período de diversão e descanso quando pegaram o avião no charmoso aeroporto de Raleigh. A expectativa era de conhecer litorais ensolarados, com praias de areia fina e mar cristalino. Mas a realidade chegou com tudo, na forma de uma turbulência brutal logo que avistaram os Everglades. Tentando manter a calma frente a possibilidade de despencar no pântano, apertaram os cintos, deram as mãos e fingiram que estava tudo bem. Mas a verdade é que só soltaram a respiração quando, depois de longos minutos, o avião aterrissou no Aeroporto Internacional de Miami.

Depois do ritual de desembarcar, pegar malas e tentar achar a saída daquele labirinto onde funcionários se recusavam a falar inglês com qualquer pessoa de cabelos escuros, nossos aventureiros constataram que nem tudo estava bem. Assim que botaram o pé do lado de fora, se depararam com a pior chuva que já viram na vida, com água jorrando quase na vertical como se viesse de uma mangueira de alta pressão gigante. Com muito custo, pegaram um táxi até o hotel e ficaram impressionados que o veículo não saiu voando, visto que os coqueiros que ladeavam algumas ruas estavam envergados e quase paralelos ao chão, tamanha a força dos ventos. O que estava acontecendo? E em que encrenca foram se meter?

Descobriram assim que chegaram ao hotel. A chuva era o anúncio de um furacão que deveria chegar ali no dia seguinte. Isaac, como era chamado, já havia causado um estrago em Cuba e soprava sem misericórdia em direção à Flórida. Cidades mais ao sul já se encontravam em estado de emergência e as emissoras locais não falavam de outra coisa. A recomendação era de armazenar suprimentos e procurar abrigo caso não fosse possível evacuar a região. Habitantes dos Keys já haviam protegido as portas e janelas das casas e agora aguardavam o inevitável. De olho nas notícias, além de assustada, me senti mesquinha ao pensar que preferia estar no lugar desses moradores. Ao menos eles não teriam que pegar um avião no dia seguinte.

É engraçado como desastres naturais nos revelam coisas assustadoras sobre nós mesmos. Até saber que a cidade onde estava seria atingida por um furacão, aquela era apenas uma viagem de férias com meu marido e eu era a parte destemida do casal. Individualmente, eu sou a louca que se mete em enrascadas enquanto meu cônjuge é a parte que avalia riscos mesmo antes de abrir os olhos de manhã. Mas ali, juntos, a coisa parecia ter se invertido. Me apavorei com as possibilidades. Queria ficar escondida até que tudo passasse e sentia o pânico me dominar quando pensava que algo podia acontecer com o amor da minha vida que, por sua vez, não queria se deixar abalar e me convenceu a dar uma volta pela cidade quando a chuva deu uma trégua.

Fomos para South Beach que, de acordo com nossa fonte local, era o lugar que devíamos conhecer considerando o cronograma apertado. De fato havia uma praia que, em condições climáticas adequadas, poderia ser perfeita. Pena que nada era favorável naquele momento: o céu estava nublado, o mar escuro com águas revoltas e até a areia branca voava com as rajadas de vento que assolavam a praia. Nada a se fazer por ali, exceto atravessar a rua e explorar os bares e comércios da parte asfaltada. E haja bar e comércio!

Para um lugar prestes a ser atingido por uma catástrofe natural, as pessoas pareciam bem despreocupadas e a vida parecia prosseguir como de costume, exceto pelo movimento reduzido. Passeamos por algumas lojas de bugigangas e passamos em frente a um estúdio de tatuagem que teve um programa de TV há alguns anos. Não sei o que esperávamos, mas certamente não ficamos impressionados. Em cada esquina tentavam nos convencer a gastar com coisas que não precisávamos e que poderíamos encontrar em outros lugares com melhor preço, qualidade e atendimento. Teríamos escapado ilesos, não fosse pela necessidade de comer.

Paramos em um dos restaurantes em frente à praia que ofereciam drinks gigantes e pratos medianos. De novo falaram em espanhol, mas a fome nos torna poliglotas. Tá no inferno, abraça o capeta. Pedimos um dos coquetéis gigantes e uma porção de alguma coisa. Comemos por dois, pagamos por três. Tudo bem, valeu a experiência. Demos uma última volta antes da garoa apertar e descobrimos que mais à noite haveriam festas pré-furacão em alguns clubes locais. Não dava mesmo pra entender aquele lugar.

Conformados em esperar pelo dia seguinte, pegamos um táxi para voltar ao hotel. Ali, a primeira surpresa agradável do dia: o taxista, um senhor haitiano, nos perguntou em inglês para onde íamos e, ao comentar que éramos brasileiros, ficou realmente empolgado e começou a dizer que gostava muito do nosso país e do nosso futebol. Comentou todas as escalações da Seleção melhor do que jamais poderíamos fazer e nos entregou sãos e salvos ao nosso destino. Lembro que demos uma boa gorjeta para ele, uma forma pequena de demonstrar a gratidão por ter nos tratado além do rótulo de latinos.

Logo a tempestade voltou e ficamos trancados no hotel até a hora de partir no dia seguinte. De manhã a chuva ia e voltava, mas o vento continuava violento, ameaçando levar tudo aquilo para Oz. No aeroporto, o pânico se desenrolava numa tragédia em três atos:

  1. Quase todos os voos foram cancelados, exceto o nosso.
  2. Como éramos as duas únicas pessoas além da tripulação capazes de falar inglês, nos deram assentos na saída de emergência.
  3. Dentro do avião, uma aeromoça visivelmente ansiosa tentava tranquilizar um passageiro. Não estava funcionando e a tensão estava em toda parte.

Dois calmantes depois e eu ainda me desesperava, imaginando uma queda no pântano. No meu pesadelo, eu sobreviveria e teria que comunicar aos meus sogros sobre o falecimento de seu único filho que, naquele momento, era o retrato do autocontrole. Ele tentava me acalmar, mas nada adiantava. Nada até o comunicado do piloto, dizendo que aquele seria um vôo difícil e pedindo calma aos passageiros. OK, pelo menos o responsável por aquela grande lata aérea não estava iludido. Talvez ficássemos bem.

Decolamos. Ao contrário da chegada, não houve turbulência. Horas depois, Miami era nunca mais.

Mini Bio - Parceria Michellandia

 

Au Revoir, Ciao, Hasta Luego, See you later, Até logo!

Michellândia

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