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Visceralistas: Cidadã do Mundo

Quando embarquei naquele avião, em janeiro de 1996, era uma menina de dezoito anos, incapaz de se localizar no próprio bairro, absolutamente dependente de pai e mãe em todos os sentidos. Se eles não me dissessem onde era o sul, o norte, o que comer e como me vestir, eu por mim mesma jamais seria capaz de adivinhar. Costumava me desesperar cada vez que cochilava com a cabeça no vidro do ônibus e acordava babando, algumas quadras depois da minha casa. Era assim, fora daquela rota: escola-casa, casa-escola, era apenas uma passageira que assistia aos contornos da minha cidade aleatória pelas janelas embaçadas no banco de trás do carro, enquanto meus pais ouviam o noticiário da CBN.

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Mapa da Europa – Fonte: Commons Wikimedia

Mas depois de passar no vestibular e cursar um ano da faculdade de Direito, houve um fato econômico que trouxe novas perspectivas para uma menina de classe média como eu.  A moeda brasileira passou a valer o mesmo que a americana e meus pais, sempre muito generosos, me propuseram um intercâmbio num país de língua inglesa, podia ser o Canadá, os Estados Unidos ou a Inglaterra. Ali eu teria uma experiência de imersão cultural, poderia aprimorar meu inglês, até então só praticado em sala de aula.

Confesso que a proposta me encheu de medo, sempre fui muito de querer ficar debaixo da saia da mãe, mas ela aparentemente achava que o mundo era um lugar melhor e me estimulou a encarar e aceitar aquele presente. Ela quer me ver longe dela, pensei com uma pontada de dúvida quanto àquelas boas intenções. Eu achava minha vida razoável, tinha meus dramas de menina insegura, fazia tudo que podia pra ser uma aluna exemplar, estava tudo bem assim.

Correndo o risco de cometer um spoiler sobre essa história, devo dizer que olhando da perspectiva atual, vejo que aquele foi o melhor presente que meus pais podiam ter me dado, depois da vida em si mesma.  Percebo que no fundo do poço do que eu era, dormia a semente viajante cidadã do mundo, foi ela que me fez dizer sim por pura intuição. Essa sensação de pertencimento a algo muito maior do que minha própria família senti pela primeira vez, de verdade, quando desembarquei numa noite fria, cheia de nevasca, no aeroporto de Heathrow, em Londres.

Um táxi de cabine preta (clássico inglês) me levou de lá até Cambridge, numa viagem de quase duas horas. Enquanto o motorista dirigia, eu olhava o para-brisas indo pra lá e pra cá e empurrando a neve que se transformava em água, para o chão. Era um cenário escuro e desolador, colorido pelos faróis brilhantes e pela conversa que travei com o motorista, para minha própria surpresa, em inglês.

Era um idioma que só havia conhecido em sala de aula, quando tremia a cada participação nos exercícios orais e que no entanto fluía da minha boca para o ouvido do taxista inglês que me conduzia rumo à primeira parada de um destino incerto. Ele me respondia com aquele sotaque tão elegante e perfeito. Então ele me entendia e eu a ele?  Então não me sentia perdida mesmo tão longe de casa?  Eu, a mais tímida das criaturas que eu conhecia, incapaz até de pedir informação na rua para estranhos, podia me comunicar nessa língua nova que eu não sabia que sabia?  A sensação foi de uma liberdade até então desconhecida, como se eu tivesse poderes secretos que foram ativados quando eu disse sim.

Sir Peter me deixou numa casa de esquina, descarregou minhas malas que eram duas, grandes e pesadas, apertou a campainha num gesto de gentileza e aguardou até que uma senhora, que seria minha anfitriã, legítima rainha daquela casa de tijolinhos de duzentos anos, abrisse a porta que dava para um corredor estreito e uma escada forrada com carpete marrom ao fundo. Apesar da hospedeira ser idêntica às bruxas que eu imaginava, inclusive trajando um vestido longo e verde, parecido com os musgos que grudam nas pedras da praia, e também ornando uma pinta saliente na ponta do nariz e dentes desgastados e amarelados, ela sorria com simpatia, me convidando para entrar.

Paguei a corrida com meus dinheiros novos e entrei. Uma versão do Papai Noel sem barbas, com o mesmo ar simpático, que se identificou como Bob, pediu que eu o acompanhasse até meu quarto. Subimos um lance de escada passando por duas portas brancas fechadas e um banheiro. Na metade do segundo lance havia uma pequena oficina cheia de violões inacabados. Bob me contou que ele mesmo fazia os instrumentos e também dava aulas de marcenaria para quem apreciasse esta arte em extinção. Mais alguns degraus e chegamos à minha alcova, um cubículo aconchegante com teto baixo, uma pequena varanda e uma claraboia sobre a cama.

No dia seguinte, mesa do café da manhã posta: cereais, geleia de laranja, chá preto e, em volta dela, outras meninas, as moradoras dos dois quartos do andar de baixo. Gamze e Agnes, a primeira, turca, a outra coreana. Nos analisamos a todas, mas apenas a menina turca olhou nos meus olhos e sorriu, por questões culturais ou timidez Agnes pareceu nem ter notado minha presença.

Gamze, a pedido de Joan, a bruxa, me conduziu até a escola de inglês em que estudava e, por coincidência, era a mesma que a minha. O fato se repetiu todos os dias de nossa convivência na casa da Victoria Road. Cruzávamos uma ponte sobre o Rio Cam, atravessávamos dois parques, sempre acompanhados de crianças inglesas e seus uniformes impecáveis, passávamos por uma igreja redonda, muito mais antiga que o Brasil, depois por um caminho cheio de salgueiros e carvalhos seminus e esquilos que fugiam da nossa presença enquanto uma figura mística de um tocador de gaita de fole vestindo saia, naquele frio, fazia a trilha sonora da travessia. Então finalmente chegávamos à escola mais bacana que já frequentei na minha vida.

Numa única sala, pessoas de todos os lugares do mundo: sírios, japoneses, suecos, alemães, russos, indianos e, sempre, muitos brasileiros. A semente adormecida no meu peito brotava com a intensidade de um raio, se expandindo em curiosidade por aqueles universos tão diferentes dos meus. Trocávamos impressões sobre música, geografia, história, artes, caligrafia, diversão, costumes, família e amor. As aulas se estendiam para os pubs, quando enchíamos os canecos de cerveja e jogávamos pinball e toda conversa possível fora, em inglês, claro. Sempre até às onze horas, quando o sino tocava, avisando os notívagos que era hora de voltar para casa.

Gamze e eu nos sentíamos como irmãs gêmeas separadas em alguma maternidade na Babilônia, fazíamos tudo juntas, mesmo que o inglês dela fosse sofrível, nos entendíamos perfeitamente. Nas noites geladas saíamos pra passear num parque próximo de casa, fumávamos um ou dois cigarros enquanto eu traduzia para o inglês as letras de música do Legião Urbana e ela achava tudo lindo. Um dia me disse: seni sevyorum, me explicando que isso significava “eu te amo” em turco.

Dois meses depois, Gamze voltou para a Turquia e foi um dos momentos mais tristes da minha vida. Ela representava para mim, todo o calor, a amizade e a diversão daquele lugar, que ficou ainda mais cinza com sua partida no fim do inverno. Fazer o trajeto de casa para a escola sem ela era de uma estranheza que causava quase um formigamento, como a perda de um membro do corpo. Chorei muito nesses dias.

Enfim a primavera chegou, os dias passaram a ser mais longos, a ponto de durar até as nove ou dez da noite e descobri novos amigos: Satoka, japonesa gentil; Andres, alemão bonitão; Alicia, americana descolada; Paula, uma mineira fashion; Bener, turco bom vivant; Shindi, japonês que me apresentou Bem Folds Five; Macquiry, do País de Gales, de quem eu tentava extrair o máximo de intimidades e curiosidades sobre o Robert Plant, que segundo ele, foi em certa época vizinho de um tio-avô seu… Mentira ou verdade, adorava saber.

Para minha desolação, o curso acabou, mas a vontade de permanecer naquele lugar, não. Foi quando conheci Luiza, uma carioca casada com um neozelandês. Administradores de um pub vizinho à minha casa, onde eu chorava minhas dores e vibrava minhas conquistas, me ofereceram um emprego, casa e até um parceiro de viagens, Pedro, irmão de Luiza que queria viajar de mochila pela Europa.

Perdi minha passagem de retorno ao Brasil, marcada para julho e resolvi topar a empreitada. Com meu passaporte italiano em mãos, um ticket de trem válido por todo o território europeu, fomos eu, Pedro e Augusto, amigo seu, numa peregrinação perrengue pela Europa, quase nada de dinheiro e muita disposição para a aventura.

Em trens de segunda classe e no convés de navios, saímos da Inglaterra rumo a Bélgica, Holanda, França, Espanha, Alemanha, Itália e Grécia. Andava com um mapa da Europa a tiracolo, junto com meu caderninho de anotações e ali, olhando aqueles países tão próximos e coloridos, com fronteiras tão inexistentes (graças à União Europeia), um certo dia, ao conversarmos sobre nosso próximo destino enquanto olhávamos o pôr do sol em Santorini, joguei a isca para os meninos. Ei, topam ir para a Turquia? Vejam, é tão perto e tenho uma amiga por lá, podemos ficar na casa dela. Éramos da mesma espécie de aventureiros sem noção do perigo, então pesquei os dois peixes na hora.

No dia seguinte embarcamos num trem, dentro do qual ficamos por três dias, nos alimentando de pão com mortadela e água da torneira do banheiro, dormindo no bagageiro quando não tinha lugar no vagão, atravessando zonas de risco de guerra, interagindo com pessoas que entravam cheias de medo e acorrentavam a porta da cabine, o que gerava um clima nauseante – elas estavam fugindo. Porque deve existir proteção divina nesse universo, chegamos ilesos, apesar de bem mais magros (o que foi bom, pois eu estava quase vinte quilos acima do meu peso) à magnífica Istambul. De lá, liguei de um orelhão para Gamze, que não acreditava quando eu dizia que ela podia me buscar na estação de trem, pois eu estava ali, em sua cidade.

O reencontro foi imenso, com direito a uma festa com toda a família de minha amiga. Ganhei tantos abraços, beijos e presentes que não poderia contar, mas pendurei alguns no pescoço. Por incrível que pareça, aquela família grande, gentil e barulhenta era uma cópia da minha própria família italiana, só que assistiam novelas turcas e se ajoelhavam para rezar no meio da rua quando alto-falantes emitiam um tipo de prece secreta à qual eu não tinha acesso.

Foram dias passados entre mesquitas mais lindas do que os mais lindos alvoreceres, comendo muita coalhada, bebendo Raki, conhecendo universidades, monumentos e transitando de shorts entre mulheres de burka preta, outras de lenços coloridos na cabeça e homens de nariz oblongo de barbas fartas que me olhavam com uma estranheza de animal de zoológico.

E o mais importante, depois de ter me banhado nesse rio de experiências de todos os tipos, nunca mais voltei a ser a menina sem bússola que se escondia debaixo da barra da saia da mãe.

Mini Bio - Parceria Michellandia

 

* Próxima publicação em 10/11 com Ju Taruga. <https://visceralistas.wordpress.com/>

Au Revoir, Ciao, Hasta Luego, See you later, Até logo!

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